O título é uma miscelânea, confesso. Coisas desconectadas, diriam alguns. Será?
Na quarta-feira, 19 de agosto de 2020, um trabalhador morreu, em plena atividade laboral, num supermercado Carrefour, no Recife. Seu nome, Moisés Santos.
Apressadamente, os gestores da loja ordenaram a outros trabalhadores que camuflassem o corpo com paredes de papelão, embalagens de cerveja e guarda-chuvas. Não, o objetivo não era garantir a integridade e a privacidade da pessoa em seu corpo morto. O objetivo era garantir ares de normalidade e manter a loja aberta, recebendo clientes, vendendo e lucrando.
Respeito, empatia, solidariedade, comoção por parte do Carrefour não existiram. Pelo contrário...
Também no Recife, no domingo, três dias antes, uma menina de 10 anos - uma criança! -, fora recebida por uma unidade hospitalar para abortar a gravidez ocorrida em virtude dos reiterados estupros de que era vítima desde os seis. Um tio é o responsável pelos crimes. E sequer sabemos se é o único.
Na oportunidade, incitados por uma criminosa contumaz e notória que expôs, nas redes sociais, o nome da garota e do hospital para o qual foi levada - ela viera do Espírito Santo, origem do caso, onde o sistema de saúde recusou atendimento à ordem judicial para a interrupção da gravidez - um bando, uma corja, um aglomerado de sub-cidadãos se fez presente para, aos berros, chamar de assassinos a menina e o médico que faria o procedimento.
Autoproclamados cidadãos de bem - essa qualquer coisa de ridículo e podre -, ou "pró-vida", majoritariamente homens, todos religiosos cristão, atacaram justamente a vítima. É algo torpe, mas, infelizmente, comum no Brasil.
Como bem lembrou uma amiga e colega professora, onde estavam eles na quarta-feira que não foram à frente do Carrefour protestar pela vida do trabalhador morto e camuflado? Afinal, era a mesma cidade e esperava-se um genuíno apego pela vida, já que tanto vociferaram por ela às portas do hospital. Sumiram. Essa causa não lhes interessa. Não houve quem lhes desse a ordem, posto que animais adestrados e ensinados a nada mais que seguir ordens. Ademais, é impossível cobrar coerência de bestas-feras.
Entre terça e quarta-feira, 18 e 19 de agosto, o Brasil registrou cerca de 2.500 mortes por Covid-19. Já são mais de 110 mil vidas perdidas em apenas cinco meses, sendo que mais de 70% deste total apenas na última metade do período.
Nos últimos 14 dias, a Bahia assistiu a um crescimento de 32% na média de mortes pela doença.
Donos de escolas, empresários de educação, no Brasil e, em especial, na Bahia, têm investido pesadamente na propaganda sobre a preparação de suas empresas - que, por acaso, são escolas - para o retorno às atividades presenciais, ainda que o poder público não tenha sequer anunciado, pública e oficialmente, se, quando e como ocorrerá. Buscam fazer crer que há uma normalidade sendo retomada e que as escolas não poderão ficar de fora deste processo. Afinal, se tudo é reaberto, qual razão para não reabrir as escolas?
Às trabalhadoras e aos trabalhadores em educação - creem tais empresários - não caberá outra coisa que não a obediência e o retorno. Embora absolutamente nada indique que é momento oportuno para a reabertura de escolas - e mesmo outras reaberturas foram precoces, haja vista o crescimento do número de óbitos por Covid-19 na Bahia, por exemplo -, busca-se incutir no consciente e inconsciente coletivos a ideia de que está tudo normal e sob controle.
Nada é normal, muito menos um normal novo, ressignificado, como tanto se diz, embora em nada se veja. É tudo velho e mofado nesta lógica perversa, neste pervertido lugar chamado Brasil, em que os ditos "pró-vida" exalam ódio, desprezo e morte. Sinal dos tempos e das escolhas coletivas mais recentes.
O Brasil é surpreendentemente previsível!
Talvez a força política da grana faça com que as escolas reabram - eles não estão investindo o que estão investindo à toa! Talvez, ante a morte de um professor, um funcionário ou um aluno, pilhas de livros - esse produto de elite que precisa pagar mais imposto, segundo o Guedes - sejam amontoadas para camuflar o corpo morto enquanto todo mundo curte o recreio.
Afinal, é tudo normal!
Allysson Mustafa é professor de História, Coordenador Geral do SINPRO-BA e membro da diretoria executiva da Contee.
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