Em agosto de 2021, o ex-prefeito de Salvador e então pré-candidato ao governo da Bahia, ACM Neto, foi direto em entrevista ao BP Money/Bahia Notícias: “Eu sou a favor de trazer o capital privado”. Ele defendeu que a Embasa precisava atrair investimentos por meio de concessão, abertura de capital “ou o que seja”, e citou como exemplo positivo a privatização da Cedae, no Rio de Janeiro. Para ele, o Marco Legal do Saneamento, aprovado em 2020, abriria as portas para o setor privado resolver os graves déficits de água e esgoto na Bahia.
Quatro anos depois, ACM Neto continua criticando duramente o serviço prestado pela Embasa. Em agosto de 2025, ele afirmou nas redes sociais que a empresa oferece um “péssimo serviço na Bahia inteira”, com a população pagando uma das tarifas mais caras do país sem receber água e esgoto adequados. Entidades do setor reagiram chamando as críticas de “levianas e oportunistas”, argumentando que elas pavimentam o caminho para a privatização, exatamente a linha que ele defendeu abertamente em 2021 e 2022. O que chama atenção é o contraste com o passado: quando foi confrontado com acusações semelhantes durante as gestões de Jacques Wagner e Rui Costa, o ex-prefeito negava qualquer intenção de privatizar.
A mudança de discurso ao longo dos anos
Em 2014, como prefeito de Salvador, ACM Neto criou a Agência Reguladora de Serviços Públicos de Salvador (Arsal) para assumir a fiscalização da Embasa na capital. Acusado por Jacques Wagner de querer “privatizar” a empresa, ele rebateu em coletiva de imprensa: “O discurso de que a gente quer privatizar é diversionista. Não existe interesse de privatização. Só está em jogo trazer para a prefeitura a regulação do serviço, fiscalizar, controlar, cobrar.”
Em 2019, já na gestão de Rui Costa, ele adotou tom mais cauteloso ao falar sobre possível abertura de capital: “Por cima da prefeitura não vai acontecer. Não estou fechado ao diálogo. Acho que a Embasa precisa de capital urgentemente.”
A guinada definitiva veio em 2021. Naquela entrevista que gerou a manchete “ACM Neto defende privatização da Embasa: ‘Eu sou a favor’”, ele admitiu que, durante oito anos de prefeitura, não conseguiu avançar com Wagner na discussão de um modelo que envolvesse concessão ou abertura de capital. A partir dali, o discurso se consolidou: em 2022, durante campanha, ele repetiu que seria necessário “mudar a gestão da Embasa e trazer o capital privado, mas em um modelo de concessão”.
O modelo que ele elogia e os problemas na prática
ACM Neto apresentou a concessão da Cedae como um bom exemplo. Quatro anos depois, o modelo enfrenta sérias dificuldades. As concessionárias (Águas do Rio, Iguá e outras) pediram reequilíbrio econômico-financeiro que, somados, chegam a bilhões de reais, alegando que os dados de cobertura de esgoto no edital estavam superestimados. Acordos bilionários foram questionados pelo Tribunal de Contas do Estado e pelo Ministério Público. Além disso, estudos e relatos apontam tarifas mais altas em áreas concedidas, investimentos aquém do prometido e cobertura insuficiente em periferias e favelas, exatamente o oposto dos benefícios de universalização e eficiência que Neto atribuía ao modelo.
Concessão ou privatização? O debate que vai além das palavras
Uma marca recorrente no discurso de ACM Neto é diferenciar “privatização” de “concessão” ou “abertura de capital”. Em 2022, ele afirmou: “Não sou a favor da privatização da Embasa, e sim da concessão”. Trata-se de um argumento comum entre defensores da participação privada, mas que merece esclarecimento.
No setor de saneamento, o titular dos serviços públicos é o município. O patrimônio físico, composto por estações de tratamento, adutoras, redes e equipamentos, permanece público. O que se transfere ao privado, seja por concessão, subconcessão, PPP ou venda parcial de ações, é o direito de explorar o serviço: cobrar tarifas, definir prioridades de investimento e tomar decisões operacionais. Na prática, isso significa transferir poder decisório e risco tarifário ao setor privado, que pode priorizar áreas mais rentáveis em detrimento de regiões deficitárias. É o que se vê no Rio: as concessionárias controlam a prestação dos serviços e já demandam ajustes bilionários que, no fim, recaem sobre o poder público ou o bolso do consumidor.
Por que resgatar essa trajetória importa
A Embasa atende centenas de municípios baianos, com realidades superavitárias e deficitárias. O debate sobre seu futuro não é apenas técnico: é profundamente político. ACM Neto construiu parte de sua narrativa criticando o desempenho da estatal sem apresentar fatos e dados que sustentem suas alegações. Ao mesmo tempo, defendeu abertamente modelos que só têm servido a interesses financeiros de grandes grupos privados, como no caso do Rio de Janeiro, e que geram disputas judiciais, tarifaços, investimentos seletivos e enormes incertezas sobre a universalização prometida.
Resgatar essa linha do tempo não é revisionismo. É lembrar que promessas de “parceria” ou “concessão” frequentemente terminam com o cidadão pagando a conta literalmente, enquanto o serviço ainda não chega a quem mais precisa. O debate sobre o futuro da Embasa merece transparência.

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